Freguesia da Batalha

Onde se semeou história e se colhe cultura

Batalha, por fora e por dentro do peito

Batalha, por fora e por dentro do peito

 

Eu e o meu avô sentávamo-nos nos muros da praça

do mercado, ou Mouzinho de Albuquerque,

donde brotavam plantas como orelhas que,

diria, ouviam atentamente. Dizia-me o meu avô:

uma vila heróica é uma vila que canta

um mosteiro:

quando te sentas aqui e contemplas o pestanejar do sol,

sonhas com o mosteiro à tua frente, maravilha entre sete,

e consegues vislumbrar, lá muito longe, a ousadia de D. João I,

o de boa memória, Mestre de Avis. Sonhas

com a batalha de Aljubarrota e sentes o silvo da espada

de Nuno Álvares Pereira e o trote do seu cavalo.

Nas noites com lua de prata e uma orquestra de grilos, sonhas

com a pedra que foi monte, montanha, e sonhas

com as Capelas Imperfeitas com o céu por tecto, tecto mais que perfeito.

Sonhas com os egrégios avós que te legaram as paredes iluminadas de vitrais,

a frescura das abóbadas e os anjos músicos dos portais. Sonhas

com o descanso dos reis, sonhas com a sã loucura de Afonso Domingues:

a abóbada não caiu, a abóbada não cairá!… Sonhas

com a sombra do monumento onde, diz o Poeta, mais pátria há

e sonhas com o resguardo das gárgulas nos beirados. Sonhas

com o azul nocturno recortado de pináculos e coruchéus.

Sonhas com o rumorejar do Lena e a ponte de Boitaca.

Sonhas com o rouxinol de Beckford e a garça de Murphy.

 

Uma vila heróica é uma vila que encerra um sonho

em forma de monumento que celebra a vitória

e onde te sentas, aqui, para te olhares por dentro.

 

Uma vila heróica habita bem no teu peito:

dizia-me o meu avô.

 

Paulo Carreira